terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Bichos grandes espalham sementes de árvores campeãs em minimizar efeito-estufa

Reinaldo José Lopes
Colaboração para a Folha

02/01/2016 02h00

Florestas que não possuem mais sua população de grandes animais, mesmo que estejam aparentemente intactas, podem perder boa parte de sua capacidade de minimizar as causas do aquecimento global, afirma um estudo liderado por especialistas brasileiros.

A questão é que os herbívoros de grande porte –no Brasil, esse grupo inclui bichos como as antas, os muriquis, as cutias e os tucanos– são os únicos que conseguem devorar com eficiência os frutos maiores (cujas sementes têm diâmetro superior a 12 milímetros, calculam os pesquisadores).



Ou seja, sem esses grandes frugívoros (comedores de frutas), fica inviável o processo de dispersão das sementes grandalhonas pela mata, já que o normal seria que elas fossem expelidas pelo sistema digestivo dos animais, já com uma camada fertilizante de fezes de lambuja.

Acontece que há uma correlação forte entre frutos e sementes grandes, de um lado, e árvores igualmente portentosas, de outro. Em geral, são justamente as árvores com esse tipo de fruto que respondem pelo grosso da capacidade que a mata tem de retirar CO2 (gás carbônico ou dióxido de carbono, cujo aumento é a principal causa do aquecimento global) da atmosfera.

Portanto, sem os bichos que atuam como jardineiros dessas plantas, sobra mais dióxido de carbono no ar –e aumentam as chances de um clima mais instável no futuro.

DEFAUNAÇÃO

Os pesquisadores responsáveis pelo estudo, liderados por Mauro Galetti, da Unesp de Rio Claro, estão entre os principais estudiosos do fenômeno da defaunação, ou seja, do progressivo esvaziamento de florestas aparentemente saudáveis.

No Brasil, esse problema é especialmente grave na mata atlântica, o bioma do país que sofre há mais tempo com a pressão intensiva da ação humana.

Mas, independentemente do lugar do país ou do planeta, a defaunação sempre acontece seguindo um padrão similar: os primeiros bichos a sumir são os maiores, em especial mamíferos e aves de grande porte.

Isso acontece tanto porque tais animais precisam de amplas extensões de ambiente saudável para sobreviver quanto pelo fato de eles renderem mais carne (e carne mais saborosa) para caçadores, o que faz com que sejam perseguidos sistematicamente.

Muitas vezes, ainda que determinada área não esteja desmatada, a pressão da caça faz com que só tenham sobrado pequenas aves, morcegos, roedores e marsupiais (além, é claro, de invertebrados).

Em estudos anteriores, Galetti e seus colegas já tinham mostrado que esse fenômeno pode ser tão grave quanto o desmatamento propriamente dito, porque os animais de grande porte são os engenheiros de seus ecossistemas, abrindo clareiras, dispersando sementes e controlando a população dos animais de tamanho mais modesto.

Na nova pesquisa, que acaba de sair na revista especializada "Science Advances", a equipe usou dados de campo e simulações para tentar dimensionar o quanto essa perda afetaria a capacidade da floresta de sugar CO2 (e colaborar para atenuar o efeito-estufa).

Em tese, qualquer planta é capaz disso –por meio da fotossíntese, os vegetais em crescimento usam a luz do Sol, além de água e gás carbônico para fabricar as moléculas que compõem seu organismo.

Mas algumas árvores são especialmente eficientes nisso, diz Galetti. "Normalmente, as árvores que têm grandes sementes são as de madeira densa, que armazenam mais carbono", declarou o pesquisador em comunicado.

MATA ATLÂNTICA

Para ser mais específico, após analisar 31 áreas de mata atlântica com florestas de mil hectares ou mais de extensão, contendo mais de 800 espécies diferentes de árvores, os especialistas verificaram que 21% dessas espécies tinham sementes grandes dispersadas por animais, das quais 70% eram de espécies com madeira "de lei", de alta densidade –boa para estocar carbono, portanto.

Além disso, as árvores de sementes grandes, como jatobás e maçarandubas, também tendem a ser aquelas mais altas.

O próximo passo foi simular o que aconteceria se, devido à falta dos animais "jardineiros", essas espécies de sementes grandes começassem a sumir da mata por falta de novas mudinhas (cedo ou tarde, é o que vai acabar acontecendo se essas áreas não forem repovoadas por bichos de grande porte).

Resultado: cada hectare dessas matas deixaria de retirar da atmosfera entre uma e quatro toneladas de carbono, dependendo da gravidade do cenário.

"Quando as árvores com madeira nobre morrem e não há mais os dispersores de sementes, elas são repostas por árvores de madeira 'mole'. O resultado é uma nova floresta, dominada por árvores menores com madeiras mais leves, que armazenam menos carbono", resume Carolina Bello, doutoranda da Unesp.

Portanto, se a ideia é usar as matas para combater as mudanças climáticas, evitar o desmatamento não basta – é preciso que elas voltem a ter populações viáveis de bichos de grande porte.

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