sexta-feira, 23 de junho de 2017

Atenção! Animais (mortos) na pista. Um alerta na Chapada dos Veadeiros

Por Duda Menegassi
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Onça parda atropelada na beira da estrada. Foto: Valdir Santos.
Onça parda atropelada na beira da estrada. Foto: Valdir Santos.

Sabe aquele jogo de computador cujo objetivo é atravessar uma galinha para o outro lado da estrada? O usuário precisa ser rápido para desviar dos carros e outros obstáculos e garantir que a galinha sobreviva ao cruzar as pistas. O game over é comum nesses jogos. Na realidade nada virtual, essa é a rotina da fauna que tenta cruzar as rodovias que recortam e transformam as unidades de conservação em ilhas isoladas. No holofote desde a sua ampliação, o novo perímetro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO) é rodeado por mais de 250 quilômetros de asfalto – e nenhuma passagem de fauna, somente alguns redutores de velocidade e placas de alerta. Apenas em uma delas, a GO-239, estima-se que morram mais de 2 mil animais atropelados por ano.

Os números são da pesquisa da geógrafa Tatiana Rolim. Entre julho de 2015 e setembro de 2016, a pesquisadora realizou 96 coletas na estrada em 42 dias de amostragem. Ao todo, foram encontrados 295 animais atropelados: 124 aves, 69 répteis, 34 mamíferos e 68 anfíbios. Ou seja, 0.042 animais encontrados a cada quilômetro e 7,023 por dia de coleta. “Se extrapolarmos esses valores, ao longo de um ano encontraríamos 2.563 animais atropelados na rodovia, cerca de 1.077 aves, 599 répteis, 295 mamíferos e 590 anfíbios”, estima Tatiana. A pesquisadora lembra também que muitos animais menores foram consumidos por predadores, como gaviões, ou foram feridos e morreram longe da rodovia, portanto “é correto supor que muitos não foram contabilizados e que, com certeza, os dados apresentados são subestimados. O montante de animais atropelados na rodovia dever ser muito superior”, alerta.

Carcará se alimenta de animal morto, o ciclo natural de presa e predador ganha outros contornos nas estradas. Creative Commons/Max Pixel.

Carcará se alimenta de animal morto, o ciclo natural de presa e predador ganha outros contornos nas estradas. Creative Commons/Max Pixel.


A alta mortandade de animais na rodovia, motivou a Associação Amigos da Floresta a iniciar uma campanha para tentar reduzir esse número. Desde o ano passado eles já realizaram ações para conscientizar os motoristas e instalaram placas educativas para redução da velocidade em função da possível presença de animais na pista. Em dezembro, o grupo entregou um abaixo-assinado com mais de 1.400 assinaturas de pessoas físicas pela implementação de medidas mitigadoras de atropelamento de animais silvestres e também de acidentes com pedestres, ciclistas e motociclistas às autoridades da Agetop (Agência Goiana de Transporte e Obras).

Segundo a representante da Associação, Flávia Cantal, “na reunião, nos foi prometida a implementação de um Projeto Piloto no prazo de 120 dias, entretanto, até o momento, só foram colocados sonorizadores e placas indicativas de travessia de fauna ao longo da GO-239. Essas medidas são importantes, mas não são suficientes para reduzir o número de atropelamentos de maneira significativa”, reforça. Ela contou ainda que “o grupo está contribuindo para a vinda da pesquisadora Fernanda Abra, para que seja feito um levantamento sobre a possibilidade de colocação de passagens de fauna por baixo da rodovia e cercas de direcionamento ao longo da GO-239”. Com o relatório em mãos, a ideia é conseguir a adesão da Agetop para implementar o projeto.

O gestor-substituto do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, Rafael Amaral, explica que existe a demanda pela implementação de passagens de fauna, mas que antes será preciso realizar o levantamento. De acordo com ele, o novo território do parque, mais que o triplo da área anterior, torna necessário refazer o planejamento do projeto pela mitigação da morte de animais em rodovias no entorno: “com a ampliação, algumas rodovias que antes estavam distantes do parque agora estão aqui dentro, por isso vamos precisar repensar e estender nosso raio de atuação, mantendo um diálogo estreito com a Agetop, empresa responsável pela jurisdição das rodovias, para que elas sejam devidamente emparelhadas com redutores de velocidade e placas alertando para o perigo de animais na pista”.

A representante da Associação acredita que “a ampliação do parque torna ainda mais urgente a implementação dessas medidas. Se antes já havia a previsão do Plano de Manejo da unidade para adotar essas medidas, em razão da sua zona de amortecimento, agora que a rodovia cruza o coração do parque, isso deve ser feito o quanto antes”.

As estradas que cortam e circundam a nova área do Parque Nacional.
As estradas que cortam e circundam a nova área do Parque Nacional.

Um relatório sobre atropelamentos nas rodovias GO-239, GO-118 (BR-010) e GO-241, que recortam a Chapada dos Veadeiros, pela zoóloga Vivian Braz apontou que as principais vítimas dos carros são o sapo-cururu (Rhinella schneideri), o tico-tico-do-campo (Ammodramus humeralis), o preá (Galea flavidens) e a jararaca (Bothrops marmoratus). A pesquisa foi feita entre 2008 e 2009 através de um projeto financiado pela Fundação Boticário e percorreu 16.562 km ao longo dos quais encontrou 839 vertebrados, sendo 539 indivíduos atropelados e 300 vivos. Uma média de 1 indivíduo a cada 20,1 quilômetros percorridos.

O Projeto de Lei 466/2015
Atualmente em tramitação no Congresso, o projeto de lei n° 466/2015, proposto pelo deputado Ricardo Izar (PP-SP), pretende criar uma política nacional que reduza os atropelamentos de fauna. O projeto determina a criação de um cadastro nacional de acidentes com animais silvestres e uma fiscalização constante nas áreas de maior incidência desses problemas. Além da criação de passagens aéreas ou subterrâneas para fauna. Segundo estimativas do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), todo ano são atropelados 473 milhões de animais vertebrados nas estradas do Brasil.

Flávia Cantal reconhece no projeto duas grandes virtudes: “além de prever a implementação de medidas mitigadoras em todo território nacional, independente da proximidade das estradas com áreas protegidas, ele prevê a possibilidade de que essas medidas já sejam pensadas e decididas por ocasião do planejamento da rodovia, podendo, consequentemente, ser adotadas juntamente com a construção da estrada e evitando a morte de muitos animais silvestres”.
Assista o vídeo da campanha contra o atropelamento da fauna da Associação Amigos da Floresta:

https://www.youtube.com/watch?v=pmBnug9JIUU&index=3&list=PLL00hQR7_8JEOKd1xZLzn4aaUWaxlyRis

Fonte:


Agrotóxicos: ‘Temos um pacote do veneno tramitando no Congresso Nacional’, alerta procuradora


pulverização aérea de agrotóxicos


IHU
Em março de 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), publicou um artigo que sistematizou pesquisas sobre o potencial cancerígeno de cinco ingredientes ativos de agrotóxicos realizadas por uma equipe de pesquisadores de 11 países, incluindo o Brasil. Baseada nestas pesquisas, a agência classificou o herbicida glifosato e os inseticidas malationa e diazinona como prováveis agentes carcinogênicos para humanos e os inseticidas tetraclorvinfós e parationa como possíveis agentes carcinogênicos para humanos. Destes, a malationa, a diazinona e o glifosato são amplamente usados no Brasil. Herbicida de amplo espectro, o glifosato é o produto mais usado nas lavouras do Brasil, especialmente em áreas plantadas com soja transgênica.
A partir desse levantamento, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgou uma nota oficial chamando a atenção para os riscos que a exposição ao glifosato e a outras substâncias representam para a saúde dos brasileiros. Dentre os efeitos associados à exposição crônica a ingredientes ativos de agrotóxicos, o Inca cita, além do câncer, infertilidade, impotência, abortos, malformações fetais, neurotoxicidade, desregulação hormonal e efeitos sobre o sistema imunológico. O Inca e a Organização Mundial da Saúde estimaram que, nos próximos cinco anos, o câncer deve ser a principal causa de mortes no Brasil.
O Inca também manifestou preocupação com o fato do Brasil ainda realizar pulverizações aéreas de agrotóxicos, que ocasionam dispersão destas substâncias pelo ambiente, contaminando amplas áreas e atingindo populações. E criticou a isenção de impostos que o país continua a conceder à indústria produtora de agrotóxicos, além do fato de o Brasil permitir o uso de agrotóxicos já proibidos em outros países. Na avaliação do instituto, o modelo de cultivo com o uso intensivo de agrotóxicos gera grandes malefícios, “como poluição ambiental e intoxicação de trabalhadores e da população em geral”.
Apesar de todas essas advertências, estão tramitando no Congresso Nacional que propõe desde a flexibilização de instrumentos de fiscalização e controle sobre o uso de agrotóxicos até a mudança da designação dos mesmos para “aliviar a carga negativa” da expressão. “É um verdadeiro pacote do veneno”, diz a procuradora da República, Ana Paula Carvalho de Medeiros.
Em entrevista ao Sul21, 12-06-2017, ela fala dos riscos que esses projetos trazem para a saúde da população e o meio ambiente. O mais perigoso de todos, destaca a procuradora, é o do deputado Covatti Filho (PP-RS), que altera toda a normatização e revoga a lei de 1989, criando uma legislação completamente diferente. Covatti Filho é o autor da proposta para que os agrotóxicos passem a ser chamados de “defensivos fitossanitários”.
Eis a entrevista
Há uma série de projetos tramitando no Congresso Nacional propondo a flexibilização de várias leis ambientais. Uma das áreas mais visadas é a da legislação de controle do uso de agrotóxicos. Como você definiria o quadro atual envolvendo esse tema?
A lei federal que trata dos agrotóxicos, de 1989, embora tenha algumas falhas, é considerada uma legislação relativamente completa e avançada. Mesmo com todos os dispositivos de proteção ao meio ambiente e à saúde que ela contém, não temos conseguido conter o uso indiscriminado e abusivo de agrotóxicos no Brasil, que é o maior consumidor mundial desses produtos, com um imenso custo social e ambiental. Apesar desse quadro, há vários projetos de lei tramitando no Congresso que flexibilizam bastante essa legislação.
Um deles merece atenção especial, o PL 3200/2015, do deputado Covatti Filho (PP-RS), que altera toda a normatização e revoga a lei de 1989, criando uma legislação completamente diferente. Atualmente, ele está apensado ao PL 6299/2002, de Blairo Maggi. Há vários projetos tramitando juntos, constituindo o que está sendo chamado de pacote do veneno. O PL 3200 é o mais preocupante, pois altera toda a legislação.
Uma questão muito importante da nossa legislação vigente sobre agrotóxicos é que ela submete o registro dos produtos a um órgão ambiental (Ibama), a um órgão da Saúde (Anvisa) e ao Ministério da Agricultura. Pela proposta do deputado Covatti Filho, a avaliação será feita apenas por um órgão novo a ser criado, a CTNFito, nos moldes da CTNBio, com 23 membros nomeados pelo ministro da Agricultura. Deste total, um integrante será indicado pelo Ministério da Saúde, um pelo Meio Ambiente e um por algum órgão de proteção à saúde do trabalhador. A participação da Saúde e do Meio Ambiente na avaliação desses produtos vira algo pro forma, sem peso para alterar nada.
É interessante que, na justificativa do projeto, cita como exemplo a ser seguido os Estados Unidos, onde há um só órgão que avalia os produtos. Ele só esqueceu de dizer que, nos Estados Unidos, quem faz isso é o órgão ambiental. Um pequeno detalhe. E no Canadá também é um só órgão, que é da área da saúde. O projeto refere os Estados Unidos como um exemplo a ser seguido, mas não copia coisas boas que existem na legislação norte-americana como o fato de que, lá, os produtos têm registro de validade de dez anos. Na Comunidade Europeia, esse prazo é de cinco anos. Já aqui no Brasil esse prazo é indeterminado. Uma vez obtido o registro, o produto está liberado. Se ocorrer um alerta de um possível perigo, abre-se um processo de reavaliação toxicológica. Há vários processos abertos há anos na Anvisa que não são concluídos, como é o caso do Paraquat que tem um processo aberto há quase dez anos.
Esse produto chegou a ser proibido no Rio Grande do Sul, não?
Sim. Em função dessa restrição da lei estadual a produtos proibidos em seus países de origem, ele chegou a ser proibido, mas depois foi liberado pela Justiça. O Paraquat está proibido até na China. Eles não podem usar, mas podem exportar para outros países.
Como está a tramitação desse projeto?
Foi criada uma comissão especial para agilizar a sua tramitação e foram realizadas várias audiências públicas que não foram muito divulgadas e reuniram pouquíssima gente. Esse projeto também propõe a alteração da designação dos agrotóxicos. O deputado propõe que, ao invés de “agrotóxicos”, essas substâncias passem a ser chamadas de “defensivos fitossanitários”, para afastar a carga negativa. Além disso, ele altera alguns conceitos importantes da legislação atual. Pela maneira como conceitua os “defensivos fitossanitários”, os herbicidas ficam fora dessa categoria. Assim, produtos como o 2,4 D, o Paraquat e o Glifosato, atualmente os mais problemáticos e alvo de maiores controvérsias, ficariam isentos de registro.
O que significa exatamente “isentos de registro”?
Para produzir e comercializar um produto é preciso ter um registro, que passa pela avaliação de um órgão ambiental, de um órgão da saúde e de um agronômico. Segundo o que propõe esse projeto, um herbicida não precisaria mais passar por esse trâmite para ser utilizado. Ele retira as prerrogativas de fiscalização do Ibama, da Anvisa e dos estados e também acaba com a possibilidade de estados e municípios estabelecerem legislações mais restritivas na área ambiental, como é o caso do Rio Grande do Sul.
A legislação gaúcha foi precursora da lei federal e prevê, entre outras coisas, que não podem ser usados no Rio Grande do Sul agrotóxicos que estejam proibidos em seu país de origem. O projeto de Covatti Filho também veta esse tipo de restrição. Os estados não poderão legislar de maneira mais protetiva ao meio ambiente, como ocorre hoje.
O Ministério Público Federal tem alguma possibilidade de intervir nesse processo para tentar barrar essa alteração da legislação?
Por enquanto, não, pois se trata de um projeto de lei, mas caso ele seja aprovado, poderá ingressar com uma Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade), pois ele fere a Constituição em muitos dispositivos, inclusive nesta questão do impedimento de estados e municípios terem uma legislação ambiental mais protetiva.
O Ministério Público tem recebido denúncias sobre contaminação com agrotóxicos?
Chega até nós pelo Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos. Temos recebido muitas denúncias nas audiências públicas promovidas pelo Fórum. A última foi realizada em Osório e a próxima será em Tupanciretã. Nós só atuamos quando há um órgão federal envolvido. Uma de nossas ações está relacionada ao receituário agronômico do CREA, com o objetivo de terminar com a chamada receita de balcão. Em princípio, para você adquirir um agrotóxico, é preciso ter uma receita assinada por um profissional habilitado pelo CREA, o que nem sempre acontece.
As denúncias que recebemos nas audiências públicas se referem principalmente a problemas envolvendo a pulverização aérea que atinge alvos que não deveria. Em razão disso, o Ministério Público começou a desenvolver um trabalho bem forte neste tema em defesa de uma regulamentação mais efetiva. Há vários órgãos encarregados de fiscalizar a pulverização aérea hoje, como Ministério da Agricultura, Fepam e Anac, mas eles não têm instrumentos adequados para realizar esse trabalho. A Anac, por exemplo, fiscaliza a atuação das empresas de pulverização por meio do preenchimento de um diário de bordo. No Fórum, nós fizemos um projeto de monitoramento eletrônico das aeronaves nos moldes do que existe hoje nas embarcações pesqueiras. Apresentamos esse projeto para a Anac e está havendo uma pressão muito grande contra ele. Ele já passou pelas comissões técnicas e estamos dependendo hoje de uma direção da diretoria da agência. Também estamos começando a trabalhar com a pulverização terrestre que não tem regulamentação alguma. O Ministério Público pretende fazer uma audiência pública sobre esse tema em agosto.
Qual o encaminhamento que vem sendo dado às denúncias que são levadas às audiências do Fórum?
Há algumas questões que aparecem praticamente em todas as audiências públicas. Além da questão da morte de abelhas, há relatos de contaminação de lavouras orgânicas por pulverizações de agrotóxicos que são feitas em áreas próximas. O problema é que, pela falta de estrutura dos órgãos responsáveis pela fiscalização, não tem como se chegar ao autor dessa contaminação. Por isso é importante o monitoramento. Além de permitir a identificação do responsável por algum dano, só o fato de a pessoa saber que está sendo monitorada já ajuda a impor alguns limites. O sistema de monitoramento não permite saber que horas foram acionados os bicos pulverizadores, mas pela velocidade e altura da aeronave é possível saber que ela está pulverizando.
Outro tema com o qual temos trabalhado bastante é o das notificações de casos de contaminações e doenças provocadas por agrotóxicos. Segundo uma estimativa da Organização Mundial da Saúde, para cada caso notificado existem outros 50 que não são notificados. Esse déficit de notificação impede a construção de políticas públicas adequadas que tenham conhecimento da real dimensão do problema. Por meio de uma proposta levantada pelo Fórum, a Secretaria Estadual da Saúde e o Conselho Regional de Medicina estão agindo sobre essa questão. A Secretaria da Saúde fez um trabalho maravilhoso com vídeo-aulas disponibilizadas para todo o Estado e promovendo caravanas pelo interior. O Fórum produziu um cartaz para colocar em todas as unidades de saúde. Conseguimos também um espaço no seminário do Conselho dos Secretários Municipais da Saúde para fazer um trabalho de sensibilização sobre a importância desse tema. Esse conjunto de iniciativas começa a dar resultados. Do ano passado para cá, já temos um incremento do número de notificações. Ainda não chegou nem perto do que se imagina que seja a realidade, mas já é um avanço.
Temos também um déficit de laboratórios para atender pessoas vítimas de intoxicação. O Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública do Rio Grande do Sul) tem um equipamento muito sofisticado, mas sofre com a falta de material. A Anvisa deveria adquirir os padrões analíticos necessários para estes exames e distribuir para toda a rede de laboratórios. A Anvisa é muito importante neste processo e não pode ser excluída de forma alguma, como quer o deputado Covatti Filho. Em 2013, uma auditoria do Tribunal de Contas da União na Anvisa constatou uma carência muito grande de técnicos para trabalhar com avaliação toxicológica.
O Fórum tem três anos de vida e já reúne 57 instituições, cujos representantes se dividem por várias comissões que trabalham com questões relacionadas aos impactos negativos dos agrotóxicos na saúde do trabalhador, do consumidor, da população e do ambiente. A comissão de fiscalização, por exemplo, vem obtendo resultados bem interessantes. Hoje, há vários órgãos com responsabilidade de fiscalizar o uso de agrotóxicos, mas esse trabalho ocorre, na maioria das vezes, de maneira segmentada sem que esses órgãos se comuniquem entre si. A comissão do Fórum reuniu todos esses órgãos e eles têm feito operações conjuntas que resultaram em apreensão de aeronaves, interdição de lavouras, descoberta de agrotóxicos contrabandeados e embalagens descartadas incorretamente. Já houve três destas operações integradas. Até então, cada órgão fazia seu trabalho separadamente.
Na sua opinião, há dentro do Ministério Público e de outras instituições de controle um aumento da preocupação com esse crescente processo de flexibilização e precarização dos mecanismos de controle e fiscalização na área ambiental, em especial em relação a esse tema do impacto dos agrotóxicos?
Sim. A criação do Fórum é um reflexo disso. Quando criamos esse espaço aqui no Rio Grande do Sul, já existia o fórum nacional e alguns estaduais. Esse fórum nacional foi crescendo de uma maneira muito forte, incentivando a criação de fóruns estaduais. Hoje, praticamente todos os estados têm um fórum desse tipo. Até então, a atuação do MPF neste tema era bem pontual. Agora, temos uma ação mais organizada e articulada, com muito mais fundamento pois temos organizações técnicas da sociedade civil e universidades, com muito conhecimento, que trazem os problemas muitas vezes já com a indicação da solução. A estrutura técnica do MP é pequena. Com essa conjugação de esforços temos condições de fazer muito mais. Agora, a Quarta Câmara, que é a câmara ambiental do Ministério Público Federal, recriou um GT sobre agrotóxicos do qual estou participando.
Você, particularmente, incorporou esse tema dos agrotóxicos em sua vida como consumidora?
Eu já tinha esse tema incorporado na minha vida como consumidora. Até por isso me interessei em trabalhar com ele, junto com outros colegas. Só feira ecológica, toda semana.

(EcoDebate, 23/06/2017) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Fonte:
https://www.ecodebate.com.br/2017/06/23/agrotoxicos-temos-um-pacote-do-veneno-tramitando-no-congresso-nacional-alerta-procuradora/

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